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Não se deixe enganar
pela sinopse
Porque
A Garota
Ideal (Lars
and the Real Girl) pode te surpreender. Digo isso
porque, sinceramente, a sinopse do filme dá uma desanimada:
um homem tímido compra uma boneca pela Internet, e ele a
trata como uma pessoa real, como sua namorada
(foto:
Divulgação). A bizarrice do argumento,
porém, torna-se algo aceitável quando o roteiro começa a
mostrar quem o protagonista, Lars Lindstrom (Ryan Gosling),
realmente é: um moço solitário, introvertido, delicado e
incapaz de estabelecer relações afetivas com pessoais
(reais).
Por isso, ele cria uma realidade que é só sua: adquire uma
réplica de mulher da Internet, personalizada por ele, e a
namora, porém, de uma maneira bastante tímida e pura. O
comportamento de Lars é intimamente transformado. Ele se
torna mais falante, comunicativo e sociável. Gus, (Paul
Schneider) irmão, e Karin (Emily Mortimer), cunhada,
orientados por Dagmar (Patricia Clarkson), psicóloga, tratam
Bianca, a boneca-namorada de Lars, como uma pessoa real. E
todos na cidade entram no jogo.
A psicóloga se faz de médica e finge tratar Bianca. No
entanto, nas conversas entre Lars e Dagmar, enquanto Bianca
"repousa" após a consulta, a psicóloga desnuda a origem do
delírio (ou delusão) do jovem solitário e compreende que o
comportamento estranho de Lars pode ser, na verdade, uma
tentativa de sair do isolamento. Texto e direção,
entretanto, não se adiantam rumo à construção de um filme
psicológico. Lars, Bianca e todos ao seu redor fazem de
A Garota Ideal uma
tragicomédia sensível, simples e cheia de pureza.
Ryan Gosling, indicado a inúmeros prêmios importantes,
inclusive o Globo de Ouro, confere ao personagem uma
delicadeza surpreendente, logo nos primeiros minutos de
filme. Nancy Oliver, a roteirista indicada ao Oscar 2008
pela originalidade do texto (ela também escreveu e
co-produziu episódios da já cult série da HBO
A Sete Palmos), e
Craig Gillespie, o diretor, dão ao filme a solidez de um
drama e uma leveza sutilmente cômica.
A Garota Ideal segue
na esteira de sucesso de outras boas tragicomédias recentes
(ou dramedy, como
dizem alguns críticos norte-americanos), como
Sideways - Entre umas e
Outras e Pequena
Miss Sunshine (isso sem mencionar
Brilho Eterno de uma Mente
sem Lembranças, que é muito mais do que uma boa
tragicomédia), e é um exemplo de que o gênero comédia
produzido nos Estados Unidos tem passado por mudanças
radicais. De lá, ora aparecem tragicomédias ou comédias
tristes, como estas citadas anteriormente, ora surgem filmes
de humor subversivo, como O
Virgem de 40 anos, já clássico desta nova onda
cômica, Superbad - É Hoje,
talvez a melhor comédia
teen já feita, e o escrachado
Trovão Tropical. O
interessante é que as boas comédias atuais, mais ou menos
enquadradas nesses dois subgêneros, são de longa duração,
com mais de uma hora e meia, e febres de locadora. Mas ainda
dá tempo de ver A Garota
Ideal no cinema!
Felipe Moraes
Colaborador

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